COMO CRESCER NA CRISE
Tanto o novo presidente norte-americano quanto o governo chinês anunciaram como prioridades realizar fortes investimentos públicos na economia, que deverão resultar na criação de novos empregos. Essa ação simultânea poderá reduzir o desespero da crise em seus países, com reflexos em todo o mundo. Não é provável que estas medidas recomponham a normalidade, tal como era antes. É possível que a economia global volte aos poucos, mas que venha sem as graves distorções que causaram o desastre recente.
Façamos votos que haja um benefício educativo, que o sistema financeiro global, após a tempestade, seja mais útil à economia real. Assim pensam empresários brasileiros, ao mesmo tempo em que cada um procura identificar na crise as próprias oportunidades. Algumas empresas sofreram acidentes de percurso nas malhas dos derivativos ou surpreendidas com a forte oscilação da paridade cambial. Muitas ganham com as mudanças no câmbio e na conjuntura.
Brasil: conjuntura e estrutura
Não somente os dirigentes das quatro empresas cujas entrevistas estamos publicando nesta edição, mas muitos outros que participaram de diversas reuniões de suas categorias, acreditam que o Brasil esteja melhor preparado para enfrentar as dificuldades e sair da crise melhor do que entrou. O que todos estão equacionando é como suas empresas podem fazer igual façanha.
O Brasil está melhor não somente por razões conjunturais o saldo de divisas cambiais, um sistema financeiro e de capitais com boa saúde e uma exposição devedora de empresas e pessoas muito menor do que os países onde a crise começou. Mas o Brasil fica melhor na comparação internacional também por razões estruturais, com destaque para o fato de ser um dos maiores produtores e exportadores de itens alimentares do mundo (demanda que é mais difícil de cortar) e potencialmente um grande produtor e exportador de etanol (que é substituto vantajoso dos derivados do petróleo). Acresce a identificação de reservas petrolíferas e o potencial hídrico. O que vale, no entanto, é a posição de cada empresa neste episódio.
Oportunidades na crise
A valorização do dólar face ao real foi vantagem para os exportadores e desvantagem para os importadores. Mas encarece a importação de muitos componentes de produtos exportáveis. Ainda assim, favorece as exportações de bens e serviços tecnológicos. O encarecimento das importações pode viabilizar a produção local de componentes importados ou atrair investimentos do exterior para isto.
Embora as exportações se tornem favorecidas pelo câmbio, a demanda externa está afetada pela crise global. Isto pode sugerir que medidas oficiais ou políticas das empresas passem a priorizar o mercado interno. Pode ser o caminho para interiorizar o mercado e o crédito. Mas fomentar mercado interno requer muito mais requer mais esforço de ampliar a ação de educação e formação profissional, de ampliação do acesso à Internet, da disseminação da informatização e telecomunicações.
Todas as empresas do País vão precisar de mais produtividade, o que pode sugerir mais serviços tecnológicos e consultoria de gestão. Afinal, as empresas do segmento de Tecnologia da Informação poderão ganhar um acréscimo de demanda. Cortar investimentos em geral é um impulso de toda a economia, mas cortar tecnologia não parece ser sempre sensato. A TI pode representar um custo inicial, que é recompensado pela redução de custos logo após.
Os problemas do Baú
Um subproduto da crise é o clima de urgência com que podem ser tratados velhos problemas do país ou da empresa - que deveriam ter sido resolvidos, mesmo se não houvesse crise. Outro subproduto é a adoção de comportamentos comedidos, com reflexo nos custos e no uso do crédito. É possível que quando a crise passar, o hábito de esbanjar entre em recesso, pelo menos até que chegue a próxima crise. Isso vale, por exemplo, para as políticas públicas, que devem enfatizar o transporte
público sobre os veículos que engarrafam as metrópoles.
Quatro exemplos
As quatro entrevistas que publicamos a seguir refletem a decisão dessas empresas buscarem as oportunidades que chegam no contexto da crise. Elas demonstram que por serem úteis, essas empresas podem garantir s posições, qualquer que seja o rumo do mercado. Suas posições, qualquer que seja o rumo do mercado. Uma análise desta natureza é feita sob o impacto dos perigos, mas deveria ser feita sempre, mesmo em situação normal. Ser útil é uma premissa da continuidade das empresas.
A concentração bancária
A fusão Itaú-Unibanco deverá ser seguida por algumas outras, com reflexo não somente no ranking dos maiores, como também na segurança do sistema. Enquanto alguns bancos se fundem, muitos outros estão nascendo, menores e especializados - a maioria resultante das cadeias de varejo e com especialização no crédito ao consumidor. Os grandes bancos brasileiros precisam ganhar escala para agir no exterior - como o fazem bancos de diversos países, dando suporte às atividades das suas empresas. As fusões no Brasil - inclusive a compra da Nossa Caixa pelo BB - não ocorrem por causa da crise, mas sim por razões de mercado, tendo sido negociadas anteriormente à crise.
Uma história
Parece útil transcrever uma história contada pelo presidente do Favecc, Francisco Leme da Silva, em nossa mesa redonda sobre Viagens de Negócios:
“A crise global é evidente, mas devem-se buscar formas para obter o sucesso dentro do colapso. Um e-mail, recebido há um mês, oriundo de Curitiba, conta a história de um vendedor de cachorro-quente que possuía um ponto de venda na estrada, fazia propaganda do seu produto, buscava comprar o melhor pão, a melhor salsicha. Com a venda de cachorro-quente, o ambulante educou seus filhos, que estudaram e se formaram. Após um tempo, um filho alertou-o que uma crise mundial estava começando. O vendedor confiou em sua formação acadêmica e passou a diminuir a qualidade de seu produto e os clientes desapareceram o negócio do ambulante faliu. E ele disse: Aí está a crise”. |