A internacionalizaÇÃo dos bancos brasileiros
Nos últimos meses, com a crise internacional estabelecida, tivemos a alegria e satisfação de ver as nossas instituições financeiras fortes, em razão do trabalho realizado pelo Brasil ao longo de mais de uma década, tanto na sua economia como na estruturação regulamentar do sistema financeiro nacional.
É muito gratificante e encorajador ver que o Brasil foi preservado de grande parte da crise sem precedentes como esta, atingindo as principais instituições financeiras dos países desenvolvidos, que independentemente de seus blocos econômicos, vêm os seus valores patrimoniais e de mercado violentamente reduzidos. Ao mesmo tempo, verifica-se o destaque concedido aos maiores e principais bancos brasileiros em razão de sua solidez com presença importante na lista de ranking dos 20 maiores mundiais.
BANCOS BRASILEIROS GANHARAM DESTAQUE NO RANKING MUNDIAL
Apesar dos impactos negativos espalhados pelos mercados, as nossas instituições mostraram grande solidez e carteira isenta de ativos tóxicos que contaminaram as instituições dos países desenvolvidos, constituindo no estopim desta grande crise.
Neste contexto também cabe ressaltar a efetiva participação do Banco Central nas medidas de proteção ao mercado e na efetiva auditoria e controle das instituições financeiras nacionais, o que não se pode ser dito em relação aos órgãos controladores dos países desenvolvidos.
Tão logo a crise eclodiu, o Brasil apresentou um processo de consolidação dos grandes bancos com os movimentos de fusão ocorridos entre o Banco Itaú e Unibanco e aquisições pelo Banco do Brasil da Nossa Caixa e do banco Votorantim entre outros. A partir dai, pudemos fazer uma serie de reflexões sobre este tema e com certeza, passarão a compor as pautas estratégicas das instituições nos próximos anos.
De fato, a natureza das instituições financeiras, sempre foi de intermediação de negócios, visando suportar as empresas na consecução dos negócios tendo sempre a instituição de tratar e suportar todo o processo de intermediação financeira e legitimação financeira da operação. Considere-se também que, ao longo dos últimos anos a nossa balança de exportação tem sido crescente, e só para efeitos comparativos, de março de 1993 a março de 2009 a nossa exportação mais do que triplicou. Em 2000 exportamos 60 bilhões de dólares e em 2008 atingimos 197 bilhões de dólares, o que mostra que a nossa base de exportação não só ganhou maturidade através das empresas exportadoras como atingiu montantes e valores significativos do nosso comercio exterior.
Mais recentemente visualizamos que países hoje com liderança e presença importantes no comercio mundial, começam a questionar o padrão de referencia da moeda americana e iniciam conversações sobre novas e diferentes formas de liquidação financeira da balança comercial. Ao mesmo tempo os participantes e influenciadores deste mercado mundial estão em plena mutação, o que mostra uma dinâmica e mudanças significativas deste comercio nos próximos anos e décadas.
OS BANCOS SEGUEM AS EMPRESAS QUE VÃO AO EXTERIOR
Se verificarmos a historia da evolução dos países desenvolvidos e suas principais empresas no processo de globalização, vemos nítidos movimentos coordenados de governo, com empresas e instituições financeiras visando um posicionamento físico e estratégico no países parceiros de negócios. Também não é a toa que todos os países que mantêm forte relação de troca com o Brasil e um forte investimento na área industrial e de serviços, têm um embasamento solido de suas instituições financeiras localizadas no Brasil. Basta observar os inúmeros bancos americanos, franceses, ingleses, italianos, alemães, japoneses e de outras tantas nacionalidade por aqui estabelecidos.
Um dos últimos movimentos coesos e estratégicos que presenciamos foi, na ultima década, o grande investimento espanhol no Brasil, através da Telefonica, empresas de utilidades, indústrias e serviços de tecnologia e consultoria etc.., com a vinda simultânea da instituição financeiras de porte como o Santander, BBV, La Caixa entre outros. E vejam também que o retorno foi tão importante a este posicionamento, que as instituições financeiras consolidaram investimentos adicionais significativos, a ponto de chegar a disputar a liderança com os maiores nacionais.
O mesmo vem acontecendo com os portugueses e assim por diante. Mais recentemente, sendo o Brasil um parceiro importante da China, está se montando aqui o Bank of China. Nada mais lógico, pois no mês passado, a China ultrapassou os Estados Unidos na nossa base de exportação e passou a ser o maior importador de nossos produtos. Fica claro que todo este movimento orquestrado tem a ver com planos estratégicos de países, visando dar todo suporte e proteção aos blocos de interesse, e sempre na busca dos melhores resultados financeiros onde direcionam seus investimentos e negócios.
Infelizmente, como brasileiro, não conseguimos ver o mesmo em nosso pais, nem ler um documento estratégico de política de governo neste sentido e, muito menos, ver movimentos de articulação que mostrem ação semelhante em direção oposta, de modo a conceder todo o suporte financeiro necessário às nossas empresas globais. Afinal nossa cultura ainda deixa para trás estas particularidades e vai na direção de fazer somente o que é possível, no tempo desejável. Documento é compromisso que pode gerar uma cobrança mais tarde! Por outro lado a falta de sinergia, com certeza faz com que percamos a maximização dos resultados dos negócios, refletindo informações importantes aos blocos concorrentes e podendo causar no futuro perdas na geração de negócios. Afinal os concorrentes estão coesos e firmes para enfrentar as dificuldades.
CORRETORAS CHEGAM PARA DAR SUPORTE A SEUS INVESTIDORES
Outro dos movimentos importantes que estão acontecendo recentemente no Brasil é o das corretoras internacionais comprando e montando operações locais, preparando-se para suportar os clientes internacionais que investem no pais e em operações de bolsa e mercadorias locais. Este é mais um fator comprobatório do modelo internacional de globalização que é adotado pelos países e empresas como uma forma de fazer negócios, buscar melhores retornos e incorporarem informações locais pertinentes visando suportar da melhor forma seus clientes e seus investimentos.
Quando vejo que a nossa balança comercial é da ordem de 200 bilhões de dólares, vê-se empresas brasileiras globais significativas que puderam avançar muito para esta posição, como Vale, Gerdau, Ambev, Perdigão, Petrobras, Embraer, Sadia, Weg, Aracruz, Marcopolo, entre muitas outras não relacionadas. Com certeza, se tivessem apoio de nossas instituições financeiras em muito poderiam alavancar e consolidar este pujante crescimento dos negócios e enfrentar solidamente a concorrência que vem com sua armada para operar e fazer negócios no país e no mundo.
As empresas globais nacionais cresceram e venceram as barreiras e mostraram seus resultados, sem ter ao lado,em todo o processo de exportação as instituições financeiras nacionais. Isto mostra que fomos capazes de evoluir apesar das deficiências. Porém, ao mesmo tempo, mostra uma potencial fragilidade estrutural para fazer crescer os novos negócios e fazer frente a situações de conflitos e de grande disputa de mercado. Sempre é bom ressaltar que uma operação global de uma instituição financeira, sempre vai exigir um pessoal altamente qualificado e diferenciado em relação ao perfil profissional local. É um tremendo investimento em pessoas, treinamento e capacitação para fazer frente a operações complexas e estruturadas de suporte a negócios vultosos e complexos. Por outro lado um grande desafio é também o de cobertura geográfica, visto que a dinâmica do negocio tem mostrado cada vez mais que a presença sempre é um fator diferenciado para o negócio.
A NECESSIDADE DE INTERNACIONALIZAR BANCOS BRASILEIROS
Vimos recentemente no auge da crise e com o fechamento momentâneo do credito, que empresas como a Petrobras tiveram que recorrer ao mercado interno de credito das instituições financeiras governamentais para obter linha de credito para garantir as obrigações de curto prazo. Este fato leva a conclusão que o tema apresentado possui uma importância estratégica significativa, principalmente se considerarmos que o Brasil terá um papel importante nesta próxima década no mercado mundial, seja no mercado externo ou no interno.
Considerando que o nosso modelo econômico tem base importante na balança comercial, pode-se antever a necessidade estratégica de internacionalização dos bancos brasileiros como um dos fatores críticos de diferenciação no modelo vigente. Por outro lado esta crise apresentou uma janela de oportunidade imensa nesta direção, e por motivos maiores, esta oportunidade não foi aproveitada e exercida pelas instituições locais. A preferência se deu para uma consolidação interna dos bancos , fato que agregou quase nada a mais para os clientes e deixou de endereçar o tema estratégico aqui abordado.
BANCOS NO EXTERIOR FICARAM BARATOS
Em outubro de 2008 com a quebra do banco americano Lehmann Brothers, os ativos e estrutura foram oferecidos ao mercado a preço muito baixo. Ora este Banco além de operações e presença mundial, possuía uma equipe treinada e com forte capital intelectual distribuído estrategicamente nos blocos econômicos. Suas operações foram vendidas a valores que qualquer banco de porte grande nacional poderia perfeitamente arcar amparado, se fosse o caso, com credito internacional para tal. Afinal estamos na lista dos TOP 20, e os valores de venda mostraram que somente os ativos fixos incorporados ao negócio indicavam representar cerca de 85 a 90% do preço acertado.
O restante seria um ativo estratégico representado por gente preparada para a função e com acesso imediato ao mercado. Não devemos duvidar que foram perdidas importantes oportunidades, o que não representa que o objetivo não seja perseguido ao longo deste próximos anos. O problema será preço e tempo, visto que este é um fator fundamental e que deve ser fortemente considerado. Se há um custo baixo de entrada com certeza, a resposta aos acionistas com resultados será rápida.
UMA ESTRATÉGIA OFICIAL PARA INTERNACIONALIZAR
Novamente cabe apontar, o Governo e o Banco Central se destacariam ao incentivar gestões nesta direção, liderando e apresentando uma exposição estratégica de motivos em nível governo, empresas globais brasileiras, bem como suas instituições financeiras controladas, para articular sinergicamente movimentos nesta direção. Quanto mais rápida forem realizadas tais ações, melhor será, pois o processo deverá apresentar um longo caminho cultural, de capacitação, de posicionamento e de operação, de forma a responder na sua integra a um modelo global para poder competir em igualdade de condições na disputa do mercado global do qual participamos.
ANTÔNIO DE CASTRO FIGUEIREDO FILHO (FIGÃO) é consultor e Membro do Conselho Ogi Technologies.
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