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Colunistas > Tácito Naves Sanglard
 
  Sobre o autor
Tácito Naves Sanglard é Vice-Presidente da Associação e do Sindicado dos Bancos do Estado do Rio de Janeiro.

tns.s@uol.com.br

A Internet e a Cultura

 

 

Junho de 2009

Vocês se lembram de um foguete com 19 metros de altura que subiu aos céus em 1957, no deserto do Cazaquistão, enviado pela ainda poderosa e temida União Soviética (URSS) dos tempos da “Guerra Fria”, carregando consigo um pequeno objeto de pouco mais de 58 centímetros, chamado de “Sputinik”?


Pois é... você se lembrou então e encontrou a razão inicial de hoje existir esta fantástica rede mundial de comunicação e transmissão de dados que é a Internet. Esse artefato primeiramente colocado em órbita gerava apenas um sonoro “beep” que poderia ser captado por radioamadores de todo o mundo, mas foi principalmente o grande propulsor de uma corrida desenfreada rumo ao espaço infinito e a exploração de todas as suas possibilidades. Em cada conquista da URSS ou dos EUA, o vencedor da etapa em jogo, se ufanava como uma criança de oito anos e exibia mundialmente pelos canais de divulgação possíveis da época, as vitorias alcançadas. E valia tudo.


Este incrível conglomerado de computadores interligados em todo o mundo, hoje possível com um simples teclar, teve origem essencialmente nesta vantagem conquistada pela URSS por este projeto que acabou por lançar posteriormente o primeiro homem ao espaço, o lendário Yuri Gagarin.


Segundo dados de 2007, certamente bastante defasados, quase 17% das pessoas de todo o mundo, e estamos falando de mais de um bilhão, fazem o acesso e se utilizam deste sistema desenvolvido pela Agencia de Projetos de Pesquisa Avançada (ARPA), testado inicialmente com sucesso em diversos e onerosos conflitos militares em que se envolveu os EUA.


Após a primeira rede de conexão, criada em 1969, na Califórnia, o avanço, desenvolvimento e utilização do sistema ocorreu em velocidade de crescimento geométrico, já antevendo os especialistas que as comunicações entrarão em grave colapso até 2010, caso não sejam realizados investimentos vultosos orçados inicialmente na casa de US$ 55 bilhões de dólares americanos. É bem possível que nos próximos anos, tenhamos que pagar por este uso hoje gratuito e ilimitado da informação desses canais, sendo necessário para isto que apenas um pequeno chip seja colocado nos nossos computadores, já nas fábricas de origem.


Diariamente assistimos aos excessos que avanços tecnológicos como este invariavelmente provocam no comportamento humano, assim como discussões exacerbadas e posições científicas abalizadas sobre as mudanças sociais e políticas ocasionadas pelo modismo. Saliente-se, no entanto, que esta experiência da Internet e suas conseqüências na economia e nos costumes mundiais, são algo tão inusitado e sem parâmetros de comparação históricos que possamos usar, que acreditamos ser apenas possível em um futuro mais longínquo, existir a possibilidade de entenderemos e julgarmos completamente, toda a transformação provocada pelas manifestações absolutamente livres e sem censura que ela nos propicia a todos.


Junte-se produtores musicais especializados e um pouquinho de técnica, e bem recentemente, uma cantora caseira da Escócia, Susan Boyle, teve a sua carreira construída mundialmente em poucas horas, pela Internet, cantando com perfeição a lindíssima canção “I dreamed a dream”, tema principal da peça “Os Miseráveis”, encenada com sucesso em todo o mundo, acontecimento que certamente o nosso Victor Hugo jamais sonhou em sua longa vida.


Crianças de qualquer idade acessam sites pornográficos ou qualquer outra informação que queiram, crimes são divulgados como se absolutamente normais fossem e os costumes universais sofrem verdadeira revolução e avanço, ou retrocesso, deixando a todos perplexos, assustados e imobilizados por discussões estéreis sobre como se comportar frente ao que não podemos mais controlar nem prever, ou mesmo avaliar corretamente as consequências.


Matérias diversas e assuntos absolutamente desnecessários são diariamente distribuídos por todo o mundo, na maioria das vezes sem qualquer tipo de comprovação, atingindo a honra de pessoas ou grupos ou mesmo construindo ídolos e disseminando meias verdades e falsas informações. Torcidas armadas e organizadas marcam encontros de violência antes das partidas, drogas são vendidas em códigos, pedófilos expõem suas aberrações e até chefes de família divulgam aulas ministradas aos filhos, ensinando como praticar os mais diversos crimes.


Saliento a posição do Professor de Comunicação Social Dr. Adilson Cabral, para quem, “graças à velocidade na circulação de informações e à facilidade do seu acesso, podemos começar a falar e a considerar sem maiores questionamentos à formação de uma cultura global, onde a troca de conhecimentos a ser produzida será entre cidadãos a partir de seus interesses específicos, passando a Internet a assumir um perfil totalitário, não dando margem para o aparecimento e o desenvolvimento de outras opções de sociabilidade”.


É inquestionável que esta pretensa cultura massificada e informações distorcidas divulgada aos quilos pela Internet, vem interferindo de maneira efetiva e conduzindo as pessoas nas suas escolhas e preferências, de qualquer ordem e sobre qualquer assunto, formando juízos de valor na maioria das vezes equivocado, baseados que são, em premissas falsas e estatísticas conduzidas por interesses diversos.


Nos utilizaremos também do pensamento de Umberto Eco sobre a cultura de massa, salientando que “não é válido formular o problema rotulando-o de bom ou de mau”, mas colocá-lo mais uma vez em evidencia como fazemos neste artigo, perguntando como ele o fez, “qual a ação cultural possível a fim de permitir que estes meios de massa possam veicular valores culturais?”.

 

 

 
 
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