Já notou como as coisas estão cada vez mais abstratas? A evolução econômica e social coloca desafios e as respostas criam novas realidades que transcendem o mundo palpável e concreto.
Neste artigo gostaria de explorar uma destas abstrações recentes, criada pela engenharia financeira, que objetivam facilitar a segregação de características de um ativo real, o famoso “Derivativo”.
Derivativo como o próprio nome sugere é um tipo de ativo, aqui entendido como um contrato que confere direitos e obrigações às partes, onde seu valor econômico é determinado de acordo com o valor econômico de um referencial qualquer. Em outras palavras, é como um filme que reproduz as ações de uma pessoa mas de fato não é fisicamente a pessoa. Parece mas não é.
Porque derivativos cresceram tanto e se tornaram tão importantes? Exatamente pela possibilidade de representarem apenas uma parte, justamente a que interessa a um grande número de pessoas, de algo comum a um grande número de ativos reais. Vejamos; todos temos sangue mas quando precisamos de uma transfusão não queremos o doador inteiro, queremos só o sangue dele que pode ser dividido e misturado com o nosso cumprindo com sua finalidade sem nenhum inconveniente. É a mesma coisa com ativos financeiros, muitos estão submetidos a um tipo de risco e, se queremos proteção contra este risco, procuramos adquirir só o que nos protege e não o ativo total.
Ótimo, parece simples e funcional então porque nos preocupar? Diferentemente do sangue que para ser obtido precisa de um doador que o tenha, um derivativo pode ser criado do nada, ou seja, é como uma fotografia que representa algo que não necessariamente possuímos e pode ser reproduzida inúmeras vezes. Esta característica de criar algo, de gerar um ativo sintético é o que exige uma reflexão.
A intermediação financeira é um processo de realocar riscos e recursos de uns para outros. Especialmente na parte de risco a característica de efetuar uma transferência entre indivíduos é o que distingue intermediação de aposta. No caso de aposta quem ganha recebe e quem perde paga mas nada útil adveio deste contrato entre as partes que não a alegria do ganhador e a tristeza do perdedor. Convenhamos, aposta não têm ou produz valor econômico, no máximo serve como entretenimento.
Então parece simples, vamos proibir a emissão de derivativos sem lastro ou melhor chamando-o, ativo sintético. Infelizmente o assunto é mais complexo. Para evitar distorções de preços por descompassos entre oferta e demanda, a venda do que ainda não temos se justifica pois impede o abuso de uns sobre outros e dá fluidez aos mercados mas note; o que ainda não temos pois a intenção é adquirir, ou repassar a quem o possua, o ativo sintético que temporariamente criamos.
Este imbróglio exige muita atenção, é como remédio, na dose certa cura na errada mata. Entender o problema é o primeiro passo para a previnir o mal uso de algo potencialmente útil. Abra o olho, seja responsável, use mas não abuse.
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terça-feira, 20 de outubro de 2009 Por Alfredo Moraes
Os grandes centros financeiros internacionais, agradecidos, brindam a iniciativa do governo Brasileiro de taxar as entradas de capitais financeiros com uma alíquota de IOF de 2%.
Na qualidade de líderes no processo de intermediação financeira global, Londres, Nova York, Tókio e outros se sentem perfeitamente preparados para competir e vencer os esforços dos centros financeiros periféricos, tais como São Paulo, que aprimoraram suas estruturas de negociação e oferecem alternativas bastante interessantes aos melhores clientes destes centros tradicionais. Não obstante a confiança em vencer sem ajuda, esta taxação dá um estímulo a mais para que nós, centros consagrados, convençamos estes clientes suscetíveis aos encantos dos emergentes que fidelidade é uma virtude ímpar e procurar coisas melhores pelo mundo afora, felizmente, não dá resultados duradouros.
Dentro do mais alto espírito de solidariedade e pensando nos ônus e dissabores das empresas e investidores Brasileiros que terão de arcar com esta elevação de custo transacional, bancos e outros agentes financeiros internacionais anunciam que reativarão produtos que permitam a mitigação deste gravame (entenda-se, contorno do imposto). Óbvio que estas medidas de alívio tributário implicam em custos mas, com toda certeza, mesmo tirando a parte que lhes cabe, propõem algo melhor que o puro pagamento do imposto. Entristecidos esclarecem que, dado a falta de interesse econômico, toda a engenharia financeira criada para melhorar a vida de tomadores e aplicadores se concentrará nos grandes e abonados. Os pequenos devedores e investidores continuarão sendo atendidos pelos canais convencionais, ou seja, pagando imposto.
Para manter a qualidade do serviço, a facilidade de comunicação, a confiança adquirida através de anos de convivência produtiva e condoídos com o provável desemprego de mão de obra qualificada que hoje atende estes clientes no Brasil, informam que consideram importar os melhores cérebros para que se juntem aos músculos já existentes nestas praças visando formar equipes de ponta que consolidarão de vez este conceito de que mercado de capitais é coisa para País desenvolvido. Bem vindos capitães da área de investimentos, tragam seus clientes e ajudem-nos a enriquecer, preferimos taxar lucro do que cobrar IOF.
A título de esclarecimento os beneficiados com este verdadeiro presente pontuam que não advogaram a tese de que este imposto serve para segurar a apreciação do Real visto que os altos princípios de idoneidade e ética que nos pautam impedem a promoção ou propagação de inverdades ou a indução de outros a erro. A história recente demonstrou claramente a ineficácia de se taxar fluxos de capitais dado sua complexidade de implementação e, neste sentido, mais cedo, ou melhor, mais tarde sabemos que isto será revogado. Neste meio tempo comprometemo-nos a envidar os melhores esforços para abocanhar as melhores oportunidades do mercado Brasileiro de capitais e mostrar que o Made in Abroad é o caminho a seguir. Obrigado de coração.
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009 Por Alfredo Moraes
Na escola aprendemos que a produção deriva de três fatores; - Recursos Naturais, - Capital e – Trabalho. Será que não é só trabalho? Vejamos:
Recursos naturais são materiais encontrados na natureza que, transformados pelo trabalho, tornam-se partes dos produtos. Sem um uso que lhe confira valor ou sem um custo de obtenção, nada valem. Como exemplo, tomemos o ar que aspiramos; matéria largamente disponível e consumida na sua forma natural, nem sequer é classificado como produto. De outro lado temos terras desérticas; nada de valor produzem e, portanto não valem nada. Se por outro lado construímos um centro turístico neste deserto como no caso de Dubai ou até de Las Vegas, então passam a valer consideravelmente. Conclusão, recurso natural não têm valor intrínseco é seu uso e o trabalho que temos em transformá-lo e ofertá-lo que lhes conferem valor.
Capital nada mais é que estoque de trabalho passado. Máquinas, equipamentos, imóveis, dinheiro, infra-estrutura, conhecimento, etc podem, em síntese, classificarem-se como produtos, ou seu potencial de transmutação no caso de dinheiro e conhecimento, cujo único diferencial é sua fruição lenta. Muitas vezes estes recursos estão voltados à produção de outros bens e serviços e neste sentido integram o processo produtivo. Melhor analisado, a não ser pela longevidade, pouco se diferenciam da energia que muitas vezes os movimentam. Os consumíveis assim como o capital integram o processo e só se diferem pela rapidez em que são consumidos.
Se tudo é trabalho por que alguns bens têm um valor substancialmente maior que o seu custo de obtenção ou substituição? É a velha lei da oferta e demanda. Produto tem um custo que deriva da quantidade de trabalho que requer, seja pelos materiais que emprega ou pela tecnologia que os transforma no objeto de desejo. No entanto, seu valor deriva da percepção de importância e prioridade de quem o utiliza. É deste aspecto; descompasso de oferta e demanda que aparecem as grandes distorções de preço que por sua vez determinam correções na produção e nos hábitos de consumo. Quem acompanha preços sabe o quão instável é este equilíbrio.
O mercado foi e tem sido a resposta para lidar com a convergência da oferta e demanda e por reflexo com a alocação eficiente do trabalho visto que a produção e o mercado consumidor dependem totalmente da capacidade e eficácia do trabalho. Será que a economia de mercado tem cumprido bem e cada vez melhor a sua função?
Parece que não. O trabalho como fator de produção é necessariamente executado por seres humanos e pessoas aprendem em uma velocidade limitada. Mercado por outro lado preocupa-se com diferencial, vantagens comparativas, destruição criativa e, nesta direção, tem sido muito eficiente. A combinação destas realidades resulta na cultura da oportunidade representado por um ideal de fazer o mínimo, por pouco tempo, lucrar o máximo enquanto der e rezar para que os “outros”continuem viáveis economicamente e interessados no que fazemos para que possamos nos manter sobre esta bicicleta que não pode parar. É como o efeito estufa, estamos preocupados mas sempre é culpa ou iniciativa dos outros.
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segunda-feira, 31 de agosto de 2009 Por Alfredo Moraes
Acabei de voltar do Congresso Bienal da BMF BOVESPA e, na sua palestra inaugural, tive a oportunidade de escutar a visão de um renomado palestrante estrangeiro sobre o desenvolvimento da China e seus impactos na economia mundial.
Daquela exposição, como em muitas outras posições que escutamos, a mensagem transmitida é que a inserção da China no mercado de consumo abre uma excelente oportunidade para o crescimento global e a expansão continuada da demanda para os produtos que o modelo ocidental atual de desenvolvimento e bem estar preconizam. Assim, o "desenvolvimento Chinês" é uma iniciativa e uma solução muito bem vinda.
Será que é bem assim? China e India contam com uma população grosseiramente equivalente a um terço do total mundial. Sabidamente, seus valores são diferentes dos padrões ocidentais e, portanto, suas aspirações também. Converter esta imensa massa de pessoas ao credo ocidental de fartura e conforto material certamente amplia a demanda mas e a oferta? Quais conseqüências negativas que advirão da institucionalização do modo de vida ocidental?
A resposta para isto é assustadora. Com uma população próxima a 5% do total os Estados Unidos consomem 25% de produto mundial e nem é preciso dizer que o impacto ambiental do padrão de vida médio atual, onde países como China e India consomem substancialmente menos, já indica claramente que estamos em um padrão de consumo insustentável e forçosamente isto terá de ser revisto.
Como já discuti em um artigo neste blog, mais nem sempre é melhor. O sistema de economia de mercado não se preocupa em melhorar a vida das pessoas se preocupa em maximizar o retorno para os envolvidos, fornecedores e consumidores. Neste sentido, se o consumidor for convencido a comprar mais mesmo que fisicamente não tenha condições de usar tudo que adquire, tanto melhor para todos.
Nós Brasileiros sabemos muito bem as “necessidades primordiais” que o marketing e seus especialistas são capazes de desenvolver na sociedade. Uma vez assimilado o paradigma, mudar para um padrão mais espartano é muito difícil. Aqui cabe uma reflexão; resolver o problema de estagnação do consumo através da incorporação de pessoas no nível dos expoentes atuais melhora?
Desconfio que a resposta será uma negativa e se assim for, estimular a difusão do modelo ocidental atual pode resultar em um impasse; damos, não temos como manter, tiramos e como ninguém acha que deva perder, brigamos.
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terça-feira, 21 de julho de 2009 Por Alfredo Moraes
Acredita-se que as sinecuras, empregos sem finalidade ou razão de existência, foram inventadas pelos chineses como forma de angariar simpatia e apoio político. Não sabemos ao certo pois a generalização da sua aplicação foi tão grande que seria uma injustiça dizer que isto é o traço de algum grupo ou povo em particular.
Se for, como é, algo economicamente indesejável e ao mesmo tempo socialmente disseminado cabe uma reflexão sobre os motivos que mantém esta anomalia em prática quando não em expansão e, se possível, o que poderíamos fazer para erradicar esta disfunção.
A análise ligeira identificará rapidamente os casos aberrantes de funcionários fantasmas e apaniguados que mesmo sem trabalhar são remunerados e, nestes casos, quando descobertos, acabam cedo ou tarde sendo expurgados. Se olharmos de forma um pouco mais atenta descobriremos uma forma mais sutil de sinecura formada pelos funcionários que trabalham mas não fazem nada sócio-economicamente relevante. Finalmente, temos a forma mais dissimulada desta disfunção, o trabalho que propositadamente gera sua própria demanda, ou seja, se retro-alimenta. Neste caso os envolvidos trabalham e o que fazem se justifica mas com ciência e vontade muito poderia ser eliminado. Estes dois últimos grupos sobrevivem como parasitas, perduram enquanto o seu hospedeiro agüentar. Como relevância e aperfeiçoamento são subjetivos e, portanto controversos, geralmente conseguem manter o status quo por longos períodos.
As forças que se opõem à perpetuação das sinecuras são a competição e a crítica. A competição porque desafia a capacidade do hospedeiro em manter procedimentos inadequados ou dissonantes em relação aos seus competidores e a crítica como remédio para atividades monopolistas ou de baixo nível de disputa de mercado, tanto por razões físicas ou tecnológicas quanto por reservas legais instituídas.
A título de sugestão gostaria de convocá-lo leitor para discutirmos aqui no Blog várias sinecuras e alternativas inteligentes de eliminá-las. Sua contribuição é muito bem vinda. No próximo artigo poderíamos começar discutindo o sistema judicial e como podemos melhorar seu desempenho pela eliminação de muito trabalho desnecessário. Outros temas podem, de forma colaborativa, ser abordados de acordo com a nossa conveniência. Este é um espaço aberto, participe.
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segunda-feira, 22 de junho de 2009 Por Alfredo Moraes
A presente crise financeira global trouxe o tema risco, no caso o financeiro, para o centro das discussões econômicas. Uns advogam políticas que restrinjam consideravelmente a possibilidade de empreendermos em atividades financeiramente arriscadas, outros preconizam requisitos maiores para que firmas atuem em áreas com potencial elevado de perdas. Tanto em um quanto em outro, todos avaliam que o presente arcabouço de assunção e gerenciamento de risco precisa ser melhorado.
Antes de tudo, vale a pena conceituar risco como a soma de duas variáveis; 1) Perda esperada – Seria a perda decorrente de assunção do risco conforme previamente previsto e 2) Perda não esperada – Equivale ao excesso da perda efetiva em relação à perda esperada. É importante decompormos as perdas nestas duas frentes pois os diagnósticos e remédios variam de acordo com elas.
Para muitos, onde me incluo, perda esperada é um custo do negócio, faz parte do preço assim como qualquer outro insumo ou serviço que fosse aplicado para a produção do ativo. Sendo assim, enfocado como dispêndio, procuramos uma relação ótima entre gasto e retorno financeiro o que muitas vezes implica em assumir gastos para maximizar o lucro. Todos que empreendem sabem que não perdemos quando não fazemos mas, por não fazer, também não ganhamos.
Por outro lado, os erros de avaliação, muitas vezes causados por fatores totalmente imprevisíveis, sobre a dimensão da perda esperada levam à perda não esperada. Como não foi antecipada, não cobramos por esta parte e, desta forma, a operação não produziu ganhos que permitam absorver a perda excedente. Vale ressaltar que, assim como temos uma perda efetiva superior à perda esperada, temos a situação inversa onde temos um ganho por uma perda inferior ao que imaginávamos. A longo prazo, a perda não esperada é deduzida dos ganhos não esperados mas a curto prazo, dependendo da magnitude do impacto da perda, a atividade pode entrar em colapso e, portanto, esta variável deve ser analisada de forma mais individualizada.
Desta pequena análise fica claro que se há algo a controlar, monitorar, limitar ou até mesmo evitar isto seria a perda não esperada e a pergunta que fica é como? Realmente, por ser não previsível é difícil saber onde e como acontecerá mas como dissemos, no longo prazo, os ganhos imprevisíveis compensam, ao menos parcialmente, as perdas. O desafio é não ser engolido por um problema conjuntural que acabe com a condição da empresa continuar exercendo suas atividades. Quando algo revela-se muito pior do que o imaginado a tendência é que os agentes passem a projetar um cenário negativo e, portanto, aumenta a chance de que, pelo conservadorismo, em seguida obtenham ganhos em relação ao que embutiram de margem para perdas e, ao menos em parte, compensem o que perderam antes.
Como se vê, gerenciamento de risco é uma ciência e como todo conhecimento demanda pessoas e instrumentos adequados. Bancos são especialistas em gerenciamento de risco, especialmente os financeiros, e tentativas de blindá-los retirando-os da função de intermediar risco certamente não é a resposta. Vamos olhar esta questão sob os vários ângulos que encerra evitando que, por miopia de diagnóstico, restrinjamos ainda mais a já pequena capacidade dos agentes financeiros de gerenciarem risco e, ao fazê-lo eficientemente, promover o crescimento econômico.
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quarta-feira, 27 de maio de 2009 Por Alfredo Moraes
A conjuntura internacional recessiva, que permitiu uma queda de juros sem precedentes, possibilitou que o Brasil, depois de décadas, visualizasse as conseqüências de assegurar uma taxa de juros na caderneta de poupança de 0,5% ao mês.
Antes de tudo vale à pena conceituar o que se entende por uma taxa básica. No sentido que abordarei neste comentário, taxa básica é aquela que é ofertada à grande maioria dos investidores sem limitações ou exigências de valores específicos e cujas cotações não sejam materialmente afetadas pelo nível da oferta de novos recursos para investimento (elasticidade próxima a zero).
Nos moldes em que o produto caderneta de poupança está estruturado e distribuído e aplicando a definição acima, não resta dúvida que a taxa da poupança é uma taxa básica.
Por que taxas básicas são economicamente relevantes? A resposta é que por sua larga abrangência e insensibilidade aos volumes investidos estas taxas acabam se tornando pisos para as taxas da economia como um todo. Se alguma aplicação se propuser a pagar menos do que esta, um investidor racional acabará refutando-a e optando pelo investimento de maior retorno, ou seja, o que paga a taxa básica. Portanto, por um princípio de competição, as taxas de outros instrumentos em um ambiente de normalidade macroeconômica logicamente serão maiores ou iguais a esta, raramente menores.
Na presença de tal situação é razoável dizer que as taxas de juros do Brasil não cairão abaixo dos 6,17% ao ano enquanto as cadernetas se propuserem a pagar o que pagam hoje. A questão da incidência ou não do imposto de renda é só um detalhe pois ele varia muito de acordo com o regime jurídico/fiscal de investidor, prazo de movimentação e incentivos fiscais que são concedidos à multiplicidade de alternativas de investimento que existem no mercado.
Se de 6,17% a.a. não baixa, quais os efeitos adversos que disto advém? Primeiro temos um limitador para o manuseio da política monetária. É sabido que um processo recessivo leva a uma queda da inflação e que a resposta a isto é uma queda na taxa de juros de forma a que haja um aumento na propensão ao consumo que absorve a capacidade excedente de produção mantendo o nível de atividade próximo do nível ideal da utilização da capacidade instalada (hiato do produto zero). Óbvio que se não conseguirmos reduzir a taxa porque existe uma alternativa que absorve todos os recursos existentes na taxa básica, a política de redução de taxas de juros têm um limite no valor desta mesma taxa básica.
Mal comparando seria dizer que, em economias que não têm esta peculiaridade, a taxa de juros têm um piso no zero pois abaixo disto faz mais sentido manter o dinheiro em conta ou em caixa do que aceitar juros negativo.
Sabedores desta fragilidade os formuladores de política econômica propõem uma meta de inflação superior a zero de tal forma que os juros praticados possam ser razoavelmente maiores que o seu piso e, com isto, tenham espaço para o manejo da política monetária sem o uso de recursos heterodoxos como os da expansão quantitativa da moeda e déficits fiscais que muitos países foram forçados a adotar durante esta crise.
Reparem que na grande maioria dos países a taxa básica flutua ao sabor da conveniência dos formuladores da política monetária e o único outro piso existente é o juro zero. Da mesma forma, explícita ou implicitamente, as metas de inflação nestes países situam-se no nível de 2% a. a., ou seja, acima do nível da taxa limite de zero.
E no Brasil, como estamos? Taxa básica limitada a 6,17% a.a. e meta de inflação em 4.5% a.a. Neste cenário, o juro real mínimo que o Brasil se propõe a praticar é, no mínimo, 3,67% a.a. superior (2% +6,17% - 4,5%) ao que outros países no mundo se permitem. Caso a meta de inflação no Brasil seja reduzida, conforme se pretende, o diferencial de juro real mínimo em relação aos outros aumenta. Triste sina dos que preferem o ilusionismo ao esclarecimento e convencimento da sociedade das implicações em manter anomalias como esta.
Gente, não tem jeito, poupança com 0,5% ao mês ou é juro real elevado ou é meta de inflação alta. De nada adianta discutir imposto de renda e outras aberrações como estas que sugerimos ao Congresso, precisa flutuar como todas as outras taxas e ponto final.
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sexta-feira, 17 de abril de 2009 Por Alfredo Moraes
Recentemente a China puxou a discussão sobre a conveniência de manter o dólar como a moeda dominante no comércio e relações internacionais. Certamente o fez porque acumulou imensos excedentes de capitais nesta moeda e, percebendo a sinuca em que se encontra, procura altenativas.
A moeda cumpre com 3 missões principais; - Unidade de conta, - Reserva de valor e - Meio de troca. Nos seus primórdios a moeda era uma mercadoria, ouro e outros metais preciosos, que por suas características de alto valor pelo peso e volume, eram práticos na viabilização do escambo, fáceis de guardar e podiam ser cunhados de forma que seu valor fosse facilmente aferível.
Desta sistemática evoluímos para a representação do valor correspondente à moeda mercadoria para uma nota emitida pelos governos que podia ser trocada pelo lastro a qualquer tempo e, mais recentemente, para o formato atual de um papel sem lastro emitido por um Banco Central que se compromete a zelar pela manutenção da estabilidade de seu valor de compra.
Concomitantemente, os roubos e outros inconvenientes de carregar moeda ou notas induziram o aparecimento dos bancos, organizações onde as pessoas depositam seus recursos e passam a movimentá-los através de ordens de pagamento, cheques e outros, preenchidos de acordo com a circunstância, assinados pelo titular do depósito e resgatável pelo favorecido ou seu preposto, no caso o banco onde o sacador tem conta. Através desta sistemática criamos a moeda escritural, ou seja, um mero registro de valor junto a um banco que hipoteticamente pode ser convertida a qualquer tempo no seu equivalente de moeda física.
A grande quantidade de envolvidos, pessoas e bancos, leva a busca pela padronização. No caso o fator predominante é a conveniência da moeda nas suas dimensões de meio de troca, reserva de valor e unidade de conta. Dentro desta lógica a padronização se deu via a larga adoção do dólar americano como padrão de apresentação de preços, a disseminação de contas de depósito nesta moeda, fácil conversibilidade para outras moedas e estabilidade de valor de compra em relação ao maior mercado consumidor do mundo, os Estados Unidos e inúmeros outros países que usam esta moeda internamente ou mantém uma paridade estreita de suas moedas com o dólar, China inclusive.
Mudar do dólar pressupõe achar algo melhor, uma outra moeda que fosse superior a esta e, principalmente, convencer milhões de pessoas disto. Convenhamos é uma tarefa tão ingrata quanto tentar disseminar o esperanto como a língua universal no lugar do inglês. Se a China e outros países incomodam-se com os efeitos derivados das políticas econômicas americanas que acabam por afetá-los e estão seriamente interessados em viabilizar mercados independentes dos Estados Unidos, deveriam, antes de mais nada, deixar suas moedas flutuarem livremente em relação ao dólar e em seguida deixarem de acumular superávits comerciais em relação a este País.
No final, moeda é só um meio para viabilizar o escambo e se acumulamos reservas significa que vendemos ou tomamos emprestado mais do que compramos ou emprestamos, este excesso resulta em acumulo de moeda. Em bom português, sobrou produção e, na falta de onde colocar, vendemos em troca deste papel pintado que é a moeda atual. Enquanto não soubermos o que queremos comprar, direta ou indiretamente, de quem vendemos ou tomamos emprestado, pouco há o que fazer. Em suma, trocar de moeda não resolve se não pararmos de vender fiado para os americanos.
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quarta-feira, 25 de março de 2009 Por Alfredo Moraes
Um dos preceitos fundamentais dos mercados atuais é a boa formação de preço, ou seja, quanto alguém paga para obter de outrem a coisa transacionada. Como sabemos preços variam de acordo com as leis da oferta e da demanda no seu sentido mais amplo. Assim, dependendo de particularidades a nível micro-econômico, para um determinado artigo, podemos ter preços diferentes no mesmo momento bastando para tanto uma falha na percepção por algumas das partes da condição mais favorável eventualmente existente ou, sabendo, exista alguma restrição, até mesmo desvantagem pela imposição de custo transacional, para que vendedor e comprador interajam. Da mesma forma, o que estamos dispostos a pagar em uma dada hora pode se alterar bastando que o conjunto de atores mude, tanto fisicamente quanto de opinião.
Cientes de que a busca pelo melhor negócio é algo que emperra e diminui o volume de transações, dentro do possível, procuramos facilitar este processo de descoberta de preço através da organização de mercados, lugares físicos ou virtuais onde interessados em vender e comprar se encontram diretamente ou através de seus prepostos.
Alguns destes mercados organizados repercutem por vastos setores e grupos sociais e os preços de seus ativos são amplamente conhecidos. Quem por exemplo não sabe o preço do dólar ou das ações mais negociadas. Até aí nenhum problema, alta visibilidade e a segurança de um ambiente de negociação sob monitoramento ético e operacional são qualidades inquestionáveis. Pegando uma carona, mais recentemente, propusemos e difundimos uma forma de valorizar um conjunto de ativos pela atribuição do valor de cada item individual com base no preço de mercado disponível. Isto começou nos fundos mútuos de investimento onde a entrada e saída diária de cotistas exige um arbitramento de preço entre os que se movimentam e, gradativamente, se espalhou para várias outras formas de valorização de ativos em especial as novas regras contábeis padrão IFRS.
Embora seja algo relativamente recente, poucos até hoje questionaram a adequação de valorizarmos ativos com base em preços de mercado para praticamente tudo. Quando o ambiente de negócios encontra-se normal, as oscilações de preços em intervalos maiores de tempo são consistentes com a mudança de percepção de valor do ativo avaliado. No entanto, em situações de ruptura de mercados, preços podem se afastar consideravelmente do valor intrínseco do ativo em tela, tanto para cima como para baixo.
Esta dicotomia entre preço e valor é causa de importantes mudanças econômicas, muitas perversas, e, portanto, merece reflexão. A crise econômica atual abriu o debate sobre o assunto e nós, sociedade civil organizada, podemos e devemos colaborar na proposição de metodologias que compatibilizem a contabilidade com base em valor justo mesmo em situações de anomalias de mercado. Os demonstrativos financeiros, antes de tudo, objetivam retratar razoavelmente o desempenho econômico das empresas e se no afã de aumentar a precisão criamos oscilações exageradas acabamos não atingindo a meta. Cabeças pensantes são bem vindas.
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quinta-feira, 12 de março de 2009 Por Alfredo Moraes
Após crítica dos empresários ao nível de juros, com inédito suporte dos bancos, nossas autoridades reagiram pontuando que o juro relevante é o que quem toma paga, melhor dizendo, a taxa básica acrescida do famoso vilão o “spread”. Se o atual nível de sobrepreço cobrado dos devedores é abusivo por que ainda não desatamos este nó?
Para analisar esta questão precisamos compreender que juro é um instrumento de transferência de renda entre quem precisa tomar emprestado e quem têm para emprestar. Ao fim e ao cabo tudo o que o devedor paga é recebido por outros, que neste caso são aplicadores, bancários, fornecedores e acionistas de bancos, governo e caloteiros. Tirando o que se paga líquido de impostos aos aplicadores, o resto integra o famigerado spread.
Desta constatação fica evidente que um alto spread claramente se relaciona a uma ineficiência do processo de intermediação financeira pois quem paga precisa destinar grande parte de sua renda à pessoas que não detêm as sobras que são o objeto do empréstimo. Os motivos variam mas alguns são menos percebidos do que outros, passo a explorar esta questão por estes ângulos.
Uma das críticas mais freqüentes é que os “Banqueiros” ganham muito. Por trás deste nome “Banqueiro” temos duas figuras – a do alto executivo de banco, funcionário com plano de participação em resultados e opção de compra de ações do banco em que trabalha e – a da pessoa ou instituição que, por sua boa reputação, credibilidade e saúde financeira, empresta seu nome ou placa como é mais comumente conhecido, para o banco do qual participa como acionista. Certamente não consideramos nesta categoria “Banqueiro” as centenas de milhares de pessoas que compram ações de bancos como alternativa de investimento.
Diminuir a fatia do “Banqueiro”, portanto, significa aumentar a oferta e ou diminuir os riscos da empreitada. Tanto em um como em outro estamos fazendo justamente o contrário. A cada crise a solução acaba sendo a compra de bancos por outros maiores e, pela diminuição da competição, o poder de barganha dos que sobram aumenta. Do lado do risco também estamos na contramão, ao invés de investirmos em bancos independentes de seus acionistas, continuamos apoiando e disseminando a idéia de que “Banqueiro” responde ilimitadamente pelos passivos do banco ao qual se vincula. Sendo assim, o capital a risco é muito maior do que o valor investido com evidentes demandas de retorno sobre um “capital” potencial totalmente abstrato. Pagamos o preço mas não sabemos ao certo o que compramos.
Outro lado pouco discutido é a renda que transferimos do bom pagador para o mau pagador. No exercício de suas atribuições, bancos gerenciam riscos de forma que, dado uma perda esperada dentro de um segmento de clientes, os que deixam de pagar acabam sendo cobertos pelos que pagam. Não existe milagre, o caloteiro não tira do banqueiro, tira de quem paga o que deve. Se for isto como melhorar? Primeiro precisamos diminuir a perda desnecessária, ou seja, aquela que quem deve tem como pagar mas não quer fazê-lo e, segundo, permitir que quem tem um bom histórico usufrua de seu bom cadastro em seu próprio benefício. A lógica de uma intermediação financeira de qualidade baseia-se no progresso dos bem sucedidos e o expurgo dos que não conseguem se viabilizar. Manter o fraco, além de onerar os que têm melhor perspectivas, empobrece a todos pois os recursos acabam empregados de forma sub-ótima.
Como diz a sabedoria popular o primeiro passo para melhorar é deixar de piorar. Vamos parar com bravatas, retórica e frases de efeito e, cientes do que resolve, caminhar na construção de soluções verdadeiras.
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quinta-feira, 12 de março de 2009 Por Alfredo Moraes
Os eventos recentes no mundo e em especial no Brasil relativo à política monetária, ou seja, taxa de juros, liquidez, grau de alavancagem de crédito e atuação no câmbio, foram muito ilustrativos sobre o grau de incerteza e requisitos de postura que se exige das decisões das pessoas que respondem pela sua formulação e, principalmente, comunicação.
A crise que ora se abate sobre o mundo, iniciou-se em meados de 2007 com o estouro da bolha do mercado imobiliário, primeiro Americano e depois Europeu. Esta onda de perdas financeiras engolfou o mercado de capitais e induziu um movimento especulativo em commodities que, em um primeiro momento foi alvo de forte demanda e alta de preços para, em seguida, colapsar frente à realidade recessiva global. Por fim, este turbilhão afetou seriamente a saúde financeira dos bancos sistemicamente importantes e com isto travou o crédito e comprometeu a fluidez dos recursos pelas economias e seus atores.
A título ilustrativo passo a examinar como o Brasil reagiu a este quadro, ressalvando que não fomos os únicos a atuar desta forma. A crise nos Estados Unidos gerou uma dúvida, no final de 2007, se beneficiaria ou prejudicaria os emergentes. Alguns pregavam a teoria do descolamento onde aquele País perderia mas o resto se beneficiaria e sustentavam seus argumentos com números da pujança do crescimento Chinês e Indiano, verdadeiros motores da nova era de expansão. Outros alegavam que as economias centrais continuavam sendo o sustentáculo da demanda e que a contração de renda por força da desarticulação e perdas financeiras levariam a uma recessão global.
Talvez pela vontade que tínhamos de que a vertente do descolamento fosse a correta, o diagnóstico de nossos artífices e magos financeiros, todos baseados em modelos e estatísticas “robustos”, verdadeiros oráculos do nosso destino, e, pior, chancelado pela autoridade monetária, respaldou este argumento e pavimentou o caminho para a coordenação das expectativas no sentido de que o Brasil sofria um processo de excesso de demanda. Sendo assim, conclamamos empresários a investirem, dissemos aos consumidores que crise de uns é a oportunidade de outros e praticamos uma política monetária condizente, ou seja, vendemos o fantasma da volta de inflação que exigia uma taxa de juros que compatibilizasse o crescimento não inflacionário, deixamos o câmbio escorregar para níveis bastante baixos e fizemos alguns movimentos pontuais de contenção da expansão do crédito.
Infelizmente, estávamos errados, a tese que se confirmou foi a da recessão global. Tal era o grau de alinhamento com a idéia de que a crise nos beneficiaria que quando percebemos o contrário causamos um choque rápido e altamente destrutivo do processo produtivo. O câmbio subiu fortemente, a programação da produção era incompatível com o cenário, as políticas de expansão de crédito e liquidez estavam bastante desalinhadas com as possibilidades do momento e, pasme, a taxa de juros sofrera um de suas maiores aumentos singulares na reunião do Copom de Setembro de 2008 (0,75%).
Não é preciso dizer que, por estarmos errados, quebramos a cara. Afora fortunas que se perderam, o pânico e falta de confiança nas previsões fortaleceram a postura do salve-se quem puder, ou seja, interesses organizados ganharam força reivindicatória e, no seu melhor interesse, propõem soluções imediatas com pouca preocupação com sua viabilidade ou sustentabilidade futura.
Se aprendemos com os erros, a lição que o Brasil e boa parte do mundo tira deste episódio é que economia não é uma ciência exata, não funciona como um mecanismo onde seus componentes portam-se de forma previsível e sensato. Os comportamentos e números passados são bases para a construção de uma decisão mas a arte, a capacidade de captar o humor , inclinações e influenciar a postura dos agentes e participantes de um mercado, é que fazem desta atividade uma ciência social e requer de seus formuladores uma capacidade indutora que sempre privilegie uma análise do balanço de riscos de forma que o alinhamento de expectativas tenha sempre uma componente anticíclica. Vamos em frente que o mundo não pára.
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008 Por Alfredo Moraes
O ano de 2008, especialmente no seu segundo semestre, mudou substancialmente as expectativas e a realidade do mercado de capitais brasileiro. Sabíamos que a crise nas economias desenvolvidas acabaria se refletindo no Brasil mas certamente fomos surpreendidos pela rapidez e intensidade do contágio.
Muito embora apresentemos sintomas parecidos com o de outras economias, ou seja, contração súbita do crédito, forte depreciação dos ativos financeiros, significativa redução na rentabilidade dos negócios, aversão a risco e desalavancagem generalizada, existem algumas diferenças importantes que facilitarão o processo de recuperação e retorno a normalidade que nos fazem ter esperança que o ano de 2009 não passará para a história como um ano de dificuldades. Vejamos:
• Sistema bancário – A forte expansão do crédito no Brasil se deu a partir de níveis absolutos bastante baixos e, no que tange a necessidade de formação de poupança para sustentar sua expansão, foi pouco impactante pois ocupou o espaço aberto pela redução da dívida pública. Neste sentido, a superalavancagem, que aniquilou vários negócios ao redor do globo, não é um vetor significante de preocupação e necessidade de intervenção. Nosso modelo de intermediação financeira baseado em grandes bancos de varejo, com ramificações em várias áreas da atividade financeira, teve a felicidade de manter-se hígido sem que houvesse ocorrências de perdas inesperadas e vultosas, preservando a credibilidade e confiança dos investidores neste núcleo de instituições financeiras sistemicamente importantes. Como o sistema está apto a intermediar, o caminho para a completa normalização do mercado de empréstimos de curto prazo, especialmente os voltados ao financiamento do giro das empresas, dependem mais de um processo de logística em atender quem precisa do que conseguir convencer poupadores a mudarem seus padrões e hábitos de investimento.
• Mercado de Capitais – Depois de hibernar por décadas, nos últimos anos assistimos a um vigoroso crescimento do mercado de capitais como crucial fonte de recursos para suportar e estimular os setores mais dinâmicos da nossa economia. Apoiados em engenharia financeira avançada e explorando com intensidade os benefícios de um mercado financeiro globalizado, injetaram expressivas somas na forma de capital de risco em empresas e projetos com bom potencial de crescimento. Os efeitos benéficos desta atuação excedem os valores diretamente investidos pois, ao concretizarem-se, criam uma consciência de oportunidades e despertam os investidores e seus prepostos, os administradores de recursos, para novas possibilidades de investimento e gerenciamento de carteiras. Infelizmente esta indústria sofreu um golpe poderoso e não se recuperará tão cedo, com certeza não durante o próximo ano. A razão para isto é que os paradigmas que sustentaram o fluxo de recursos para as economias emergentes e, especialmente, para as empresas inovadoras e empreendedoras, foram profundamente questionados em função dos problemas que os gigantes do setor enfrentaram. Inseguros, os investidores se retraíram e, como não têm o alcance, escala e sofisticação para operarem como estes agentes operavam, a fonte secou.
• Ciclo Econômico – Enquanto o mundo cresceu a taxas aceleradas, o Brasil patinava, finalmente ao final de 2006 e início de 2007, impulsionado pela forte injeção de capital em empresas com bons projetos de investimento, decolamos. O fato de estarmos atrasados em relação ao resto do mundo permitiu que a reversão causada pela desalavancagem global tivesse impacto bem menor do que outras economias. O crescimento acelerado que preocupava as autoridades monetárias Brasileiras, deu lugar a um arrefecimento na expansão e, muito provavelmente, não chegaremos a um estado de recessão. Vale notar que a capacidade de produção foi aumentada em função do cenário prevalente até meados de 2008. Sendo assim, temos ampla possibilidade e capacidade de suportar um crescimento endógeno benigno e com importantes repercussões anticíclicas.
Estas diferenças ajudam a evitar, no nosso País, o pior de um ciclo recessivo ou até mesmo depressivo que ameaça a economia global. Estamos melhor no ângulo da atividade mas importantes mudanças na forma como o processo produtivo se dá estão em curso fruto deste ambiente macroeconômico que se instaurou. Alguns aspectos que passo a descrever devem ser examinados em profundidade para procurarmos minimizar os potenciais impactos negativos que encerram. Seguem os pontos de atenção:
• Estímulo à Conglomeração – A súbita reversão das expectativas econômicas provocou forte impacto financeiro em várias empresas. Muito embora economicamente ainda apresentem boas perspectivas, o arrocho financeiro obriga a muitas procurarem soluções para seus negócios via alianças com seus pares. Vários setores no Brasil já apresentam níveis de concentração na oferta muito superiores aos dos padrões de economias desenvolvidas. Se por um lado obtemos sinergias e ganhos de escala, por outro perdemos em dinamismo e diversidade. Parece difícil barrar o processo de oligopolização mas, se esta for a alternativa, precisamos melhorar substancialmente nosso arcabouço de defesa contra práticas monopolistas.
• Risco de Crédito – A desarticulação do arranjo que impulsionava o mercado de capitais fechou portas para o acesso direto das empresas aos investidores. Ao mesmo tempo, bancos especialistas em crédito apoiavam-se em captações junto a investidores institucionais que face ao cenário de incertezas e dubiedades retraíram-se. As conseqüências desta combinação de fatores foram a súbita contração na oferta de crédito que por sua vez aumentou o atraso nos pagamentos por parte dos devedores. Afetados pelos atrasos e pela diminuição da captação, os bancos especialistas em crédito tiveram que recorrer às instituições varejistas de grande porte que condicionam o seu suporte à observância de critérios rígidos de concessão de crédito e, em alguns casos, optam por adquirir as operações destas instituições. A diminuição na diversidade de ofertantes de crédito restringe a capacidade de distribuição de crédito na ponta o que pode levar a um crescimento sub-ótimo para muitos em função do fraco suporte financeiro do sistema.
• Fundamentos Macro-Econômicos – A excelente performance na área fiscal, cambial e de crescimento com inclusão social dos últimos anos, baseou-se no boom do crédito e, posteriormente, dos investimentos. Com renda o consumo aumentou, maior consumo propiciou ganhos de escala e com isto o emprego e a rentabilidade cresceram. Como os impostos no Brasil em grande parte estão ligados ao nível de atividade, a arrecadação bateu seguidos recordes. Óbvio que toda esta conjuntura favorável acabou. A rápida desvalorização do Real em comparação às principais moedas globais trouxe prejuízos às empresas, o crédito contraiu e as vendas, principalmente em artigos de maior valor como automóveis, despencaram. Este quadro acabará se refletindo na arrecadação e como os gastos públicos no Brasil são de difícil diminuição, o superávit fiscal certamente piorará. A fórmula de diminuir juro como medida anti-recessiva, ao que tudo indica, não será uma alternativa viável no nosso caso. A pressão da desvalorização cambial combinado com um aperto na rentabilidade das empresas sugere um recrudescimento das expectativas inflacionárias. Neste quadro é difícil imaginar um Banco Central complacente.
Os balanços dos fatores favoráveis e dos pontos de atenção sugerem que o ano de 2009 será um ano de ajustes e transição. Os desacertos, caso existam, no curto prazo são suportáveis visto o alto nível de reservas internacionais e o espaço nas contas públicas decorrente dos acúmulos de anos anteriores. Não obstante caso dilapidemos estes acúmulos por incapacidade em rearticular o processo produtivo e de crescimento sustentável não inflacionário, comprometeremos as expectativas futuras.
Concluindo, não podemos ficar indiferentes à realidade internacional adversa e, portanto, devemos fazer ajustes internos que assegurem a fluidez de recursos para as áreas com melhor potencial de crescimento e geração de renda. O papel do governo e dos grandes grupos econômicos é fundamental para que o rearranjo necessário em 2009 seja bem sucedido. A globalização impõe condicionantes de política econômica e não podemos ficar indiferentes a isto, a recessão mundial nos afeta mas felizmente temos uma frente de expansão doméstica viável de ser explorada e com baixa dependência de recursos externos para sua viabilização, que abre a possibilidade que este quadro adverso passe com pouco impacto sobre nós. Mãos a obra, foco nos problemas e oportunidades que se apresentam e união de forças em prol de um modelo de desenvolvimento autônomo e sustentável são as ações que precisamos e podemos fazer. Feliz 2009.
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008 Por Alfredo Moraes
Racionalmente pensando, os preços de ativos, em especial os financeiros, se formam de acordo com sua expectativa de geração de renda futura descontado a valor presente. Simplificando, o preço hoje corresponde ao que esperamos receber no futuro tanto na forma de distribuição de resultados quanto pelo valor que apuraremos quando da venda ao nos retirarmos do investimento. Este valor de venda nada mais é que uma sucessão de expectativas de distribuição de resultados futuros.
Se for assim, porque em tão curto espaço de tempo os preços dos ativos variam tanto como o que temos observado ultimamente? Tomemos como exemplo a Petrobras. Nos últimos seis meses o preço de suas ações caiu 60%. Neste intervalo, o preço do petróleo subiu ao seu recorde histórico e caiu hoje ao patamar de dois anos atrás. A Petrobras encontrou imensas reservas de petróleo no já famoso “Pré-Sal”, os mercados mundiais, especialmente o mercado de capitais transnacional, sofreu um duríssimo golpe com o desmantelamento de seu principal elo, os grandes bancos de investimento globais.
Desta gama de acontecimentos temos alguns que são perenes, descoberta de novos campos petrolíferos, e outros que são circunstanciais, preço e demanda global por petróleo. Mas um em especial chama atenção, a desarticulação do mercado de capitais. É sobre este ângulo que passo a examinar e explicar o comportamento dos mercados.
A quantidade, complexidade e diversidade de informações e produtos financeiros disponíveis, associados ao conhecimento técnico requerido para a montagem de uma carteira de investimentos equilibrada e ajustada ao perfil de investidores, tornam a missão de operar neste ambiente uma tarefa interativa e requer um bom grau de cooperação e confiança entre o rol de envolvidos. Ninguém, por mais preparado que seja consegue atuar de forma isolada nesta linha de negócios. Para pavimentar este caminho e fazer fluir as oportunidades e informações, ao longo de décadas, estas relações foram se estreitando e se acomodando e no centro delas surgiu a Meca desta indústria, Wall Street e seus ícones sagrados que ditavam as tendências, influenciavam atitudes, comportamentos e, principalmente, instilavam confiança.
Se foi por ganância, culpa de política econômica, erro de avaliação ou qualquer outro motivo, pouco importa, o que sabemos é que o oráculo quebrou, nada mais é como antes. No vazio que se segue, fazemos o que sabemos e conseguimos, individualmente, avaliar e gerenciar, isto é, compramos ativos cujo preço oscila pouco, ou seja, títulos do tesouro do País onde moramos e de preferência de curto prazo. Como somos muitos, numérica e financeiramente, e pela mais absoluta incompetência de aproveitarmos as imensas oportunidades que se criam neste desmonte, a casa cai, infelizmente com todos dentro.
Esta, a meu ver, é a melhor definição de Bear Market, um estado de prostração e frustração onde todos perdem. Pouco poderemos fazer se não encontrarmos formas de voltar a interagir. A força sempre deriva da união. Esqueça esta idéia de esperar uma solução via governo, o máximo que conseguem é acomodar quem grita mais. A solução requer que nós, como sociedade, escolhamos nossas novas referências e campeões e, dentro da multiplicidade de oportunidades, nos aventuremos a investir. Se ficar o bicho come se correr o bicho pega, não adianta se esconder, mãos à obra.
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terça-feira, 28 de outubro de 2008 Por Alfredo Moraes
A atual crise de liquidez enfrentada pelos mercados financeiros mundiais trouxe o debate sobre as práticas de Hedge das empresas exportadoras. Um dos ângulos abordados foi a conveniência destas empresas atuarem no mercado de derivativos tanto em bolsa quanto no balcão
Convém explicar. Nos contratos de balcão as partes que transacionam se conhecem e negociam cada operação detalhe por detalhe, inclusive definindo limite de crédito, salvaguardas, mecanismos de margens, formas de aporte de garantias e mesmo eventual liquidação antecipada da operação. No caso de bolsa, comprador e vendedor operam com quem se apresente no ambiente de negociação e, para poderem aceitar-se mutuamente, elegem uma empresa ligada à Bolsa (Contraparte Central) para assumir o risco de vendedores e compradores. Por ser um contrato previamente definido em termos de condições, valores unitários e obrigações entre as partes, na Bolsa só resta aos envolvidos negociarem preço e número de contratos unitários entre si. Afora estas peculiaridades, são absolutamente equivalentes e, portanto, não há diferença entre os instrumentos utilizados para o propósito deste artigo.
A experiência recente onde a súbita elevação do câmbio trouxe tanta agitação e desconforto aos envolvidos levou ao clamor de alguns pela limitação na utilização de derivativos por empresas, especialmente às exportadoras. Seria este o comportamento correto? Arrisco um diagnóstico. Mercados de derivativos realocam riscos dentro da economia, sendo assim, exportadores são naturais vendedores de proteção contra a alta de moedas estrangeiras vista sua exposição financeira a perdas em caso de apreciação da moeda nacional como bem acompanhamos ao longo destes últimos 5 anos. Sendo assim, vender proteção no mercado cambial justifica-se economicamente. Por outro lado, financeiramente, empresas que atuam nestes instrumentos podem enfrentar problemas. Os mecanismos de contabilização e a chamada de margens, tanto no balcão quanto nas bolsas, debilitam a saúde financeira da empresa em um primeiro momento. O motivo é que ao não reconhecerem, no momento atual, o potencial de ganho futuro pelo aumento da cotação da moeda em que vendem os seus produtos, cria-se a impressão de prejuízo. Este descompasso entre resultados imediatos e perspectivas futuras associado à dificuldade da companhia em comunicar a racionalidade econômica de seu posicionamento nos contratos que firmou dá margem à grita geral.
Pior é constatar que sob pressão, muitas vezes, as empresas tomam decisões irrefletidas de zeragem dos contratos que causam o tal prejuízo. Estanca-se a perda financeira mas, aí sim, expõe a empresa ao risco cambial.
Como se vê, quem trabalha com comércio internacional não pode se dar ao luxo de estar zerado em derivativos cambiais pois se assim procedesse estaria submetido à imprevisibilidade de seus resultados futuros pelo descompasso entre os seus custos em moeda local vis a vis suas receitas nas moedas onde vendeu ou firmou contratos de fornecimento. A proteção cambial nestes casos não é aposta ou especulação, é um imperativo de boa gestão.
Se a solução não é limitar o uso de derivativos, o que podemos fazer para diminuir o ruído nestes momentos de crise? A resposta é simples, vamos investir em comunicação clara, crível e expedita dos impactos econômicos sobre as finanças dos grandes atores destes mercados. O sigilo das estratégias individuais convive perfeitamente com informações confiáveis sobre nível de exposição a risco e testes de robustez do aparato de controle destes participantes com relevância sistêmica. A sociedade civil organizada, através de suas entidades representativas, pode e dará sua contribuição para o desenvolvimento de procedimentos e criação de aparato condizente para que derivativos cumpram com seu propósito de redistribuir risco e, com isto, amenizar os efeitos localizados dos eventuais tsunamis econômicos.
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terça-feira, 30 de setembro de 2008 Por Alfredo Moraes
A recente discussão sobre a criação da “Petrosal”, a mais nova estatal em gestação para explorar as riquezas das reservas petrolíferas na camada do pré-sal, abre excelente oportunidade para refletirmos sobre a importância, ou melhor, a falta de importância do tipo de acionista para o desempenho social de uma empresa.
Como bem sabemos, empresas são resultantes da união de acionistas que aportam recursos que por sua vez serão usados como lastro para o desenvolvimento do plano de negócios imaginado. Não fossem as incertezas sobre o planejado frente à realidade de mercado, o capital de risco nem seria necessário, bastaria que os formuladores da estratégia levantassem os recursos na forma de empréstimos e dessem prosseguimento ao seu projeto. Como não é, ou seja, o planejado normalmente se afasta da realidade, precisamos de pessoas que avaliam os riscos e aceitam atuar como colchões, absorvendo as flutuações positivas e negativas deste descompasso entre imaginado e realizado.
Dentro desta lógica de raciocínio, bons acionistas são aqueles que têm visão e capacidade para apoiar os negócios em que investem. Uma empresa de capital pulverizado, sem um grupo de controle definido, em muito se assemelha a uma empresa de capital público. Tanto em um quanto em outro, representantes são escolhidos e acabam por atuar no que entendem ser o desejo de seus representados sem, no entanto, consultá-los sobre os assuntos específicos.
Mais especificamente, no caso da Petrobrás, observamos que o Estado interpreta a vontade de seus constituintes e decide que, para investir em uma atividade de baixo risco como a exploração de óleo em área já sabidamente produtora, não precisa partilhar recursos com seus sócios da empreitada comum que têm na reconhecida e bem sucedida empresa petrolífera chamada Petrobrás. O pretexto para empreender sozinho é de que os outros acionistas fariam jus a uma participação superior ao risco que assumiriam como provedores do capital que permitiria viabilizar os maciços investimentos requeridos nesta nova fronteira de exploração.
Evidentemente esta avaliação parece totalmente equivocada. Se tivermos um investimento de baixo risco, ou seja, se o retorno do petróleo encontrado na camada pré-sal fosse líquido e certo, o que está longe de ser uma verdade, então o ágio em um processo de aporte de capital para fazer frente a estes novos investimentos seria alto e o governo não precisaria em se preocupar em montar uma nova empresa para fazer o que a Petrobras já faz com muita competência. Se por outro lado, o risco deste investimento fosse razoável, a única justificativa para investirmos com recursos do tesouro se prenderia à falta de melhores oportunidades de investimentos em outras frentes o que, convenhamos, dificilmente seria o caso em uma economia como a Brasileira.
Capital público ou capital privado pulverizado, do ponto de vista social, são absolutamente iguais. Uma empresa não gera valor somente a seus acionistas, os empregados, os fornecedores, o governo através dos impostos e todos os outros que de alguma forma interagem e se beneficiam do processo produtivo da indústria de petróleo ganham com estas descobertas e privarmos a todos por uma discussão inócua se a Petrobras é uma empresa que retorna socialmente para o governo, só atrasara e fragmentara o enorme esforço de transformar petróleo nas profundezas do mar em valor para o conjunto da sociedade Brasileira e, por que não dizer, mundial.
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sexta-feira, 22 de agosto de 2008 Por Alfredo Moraes
Quando recebemos alguma coisa de graça, ou seja, não pagamos diretamente por ela, será que é mesmo grátis?
Vejamos; um aluno da rede pública de ensino que não paga à escola para estudar estaria de fato recebendo algo independentemente de uma retribuição ou simplesmente estamos cobrando-o de forma pouco transparente?
Sabemos que prover educação implica em custos, estes custos são providos pelo Estado que por sua vez os pagam com o dinheiro dos impostos que arrecadam. Sabemos ainda que quem suporta o ônus dos impostos são os cidadãos pois empresas são meras repassadoras de encargos para terceiros.
Como o objetivo do estudo é preparar as pessoas para a atividade produtiva e, portanto, o aluno de hoje é o trabalhador de amanhã, concluímos que o ensino, embora não pago diretamente, não é gratuito. Este raciocínio vale para quase tudo que nos dão, se algo custa para ser disponibilizado, não é de graça.
Então quais seriam as razões que justificariam não atribuirmos um valor para algo que provemos a outrém? Uma excelente razão para não estipular e evidenciar o preço de algo é o custo de fazê-lo frente aos benefícios de sabermos quanto e quem recebe pelos serviços ou bens concedidos. Outro motivo relevante seria quando um serviço é demandado de forma generalizada, sem grande diferença entre os cidadãos, e, portanto, um controle individualizado não se justifica dado a facilidade de inferirmos estatisticamente o que cada um recebe. Afora estes casos, todos os demais não encontram respaldo para não serem explicitados.
Sendo assim, por que esta prática de “dar” algo às pessoas é tão disseminada e cada vez mais usada? Um motivo aparente é o benefício eleitoral que estas liberalidades propiciam. A grande maioria das pessoas associa o pagamento direto como algo que lhes é subtraído mas não se sentem cobradas quando pagam via terceiros estes mesmos custos na forma de preço dos produtos e serviços que consomem, e que embutem os impostos que subsidiam estes programas, ou mesmo no baixo rendimento do trabalho que executam. Desta forma, o político Robin Hood que pseudamente tira dos “ricos” para dar aos “pobres”, é um sucesso nas bilheterias das urnas eleitorais.
Outra razão menos óbvia é a grande dificuldade que temos em aferir, atribuir e controlar o que cada um paga e recebe do Estado ao longo da vida no nosso País. Embora a tecnologia existente permita um controle a baixo custo e eficiente da maior parte dos “gastos sociais”, o Estado Brasileiro ainda não emprega muitas destas ferramentas e, pior, parece não haver um movimento consistente de evoluirmos neste front.
A postura de um Estado que seja digno do nome não é servir só os que podem pagar mas, por outro lado, esconder o quanto a sociedade investe nas pessoas na forma de gastos que ainda, ou talvez nunca, serão repagos por quem recebe o apoio que disponibilizamos, certamente não ajuda a construir uma sociedade que se aprimora e entende de onde vem e para onde vai o seu dinheiro. O preço não negociado é sempre o mais caro.
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segunda-feira, 7 de julho de 2008 Por Alfredo Moraes
Nestas minhas andanças e observação da política nacional fico com a impressão que um grande número de pessoas acha que o paraíso é uma sociedade onde ninguém precise trabalhar. Nesta utópia, todas as suas necessidades e vontades seriam atendidas pela mão invisível de um Estado onipresente que, pródigo em conceder direitos, contaria com a eterna benção de seus eleitores/beneficiários.
Thomas More propunha uma sociedade neste moldes onde todos os serviços ralés eram desempenhados por escravos enquanto os “cidadãos” usufruiriam de uma vida de ócio e prazeres. Transportado para os nossos tempos, os escravos seriam as máquinas, cada vez mais autônomas e submissas à nossa vontade e comando, servis e auto-sustentáveis e o prazer se transforma em lazer.
Esta visão idílica se enraizou de tal forma que, salvo melhor juízo, arriscamos perder a essência do sentido do trabalho. Produzir não é só importante para a sobrevivência, é fundamental para o progresso e bem estar, tanto o pessoal quanto o coletivo. Lutar para conquistar sem precisar expropriar ou destruir o que foi construído por outros é o bem maior que obtemos através do trabalho.
Pessoas produtivas, e reconhecidas como tal, não só se sentem bem, como gastam sua energia de maneira construtiva, deixam um legado e fazem a diferença. Mal comparando, é como o exercício físico. Quando os confortos da vida moderna diminuíram muito a atividade física percebemos o quão importante ela é e passamos a nos exercitar mesmo sem uma finalidade econômica, simplesmente visando nossa saúde física e mental.
Falo isto por duas grandes discussões que enfrentamos neste momento. A primeira se refere a aposentadoria. Quando deveríamos pagar para alguém ficar em casa? Certamente a resposta não se vincula a uma idade específica muito menos a um determinado número de anos de serviço. O que importa saber é se o custo de mobilização da pessoa para integrá-la ao ambiente produtivo é menor do que o valor que ele adiciona através do seu trabalho. O segundo grande debate se prende à jornada de trabalho. Reduzir o número de horas trabalhadas faz sentido? Mais uma vez, a resposta não se prende ao objeto da discussão mas sim à condição do trabalho e do trabalhador. Jornada de trabalho faz sentido em trabalhos coletivos tipo linha de montagem onde todos precisam estar sincronizados e se auto-completarem, no resto, pouco importa.
Portanto, a discussão relevante não é como exigir menos das pessoas e sim como extrair tudo de bom que cada um de nós tem para dar ao longo dos muitos anos que viveremos. Trabalho não é bom, trabalho é ótimo, feliz aqueles que podem continuar produzindo por toda a vida.
A recente discussão sobre a criação da CSS (Contribuição Social para a Saúde) abre a oportunidade para refletirmos sobre princípios que norteiam a instituição de tributos sobre a sociedade.
A primeira coisa que objetivamos com tributos é arrecadar, ou seja, extrair recursos que permitiriam sustentar gastos. Adicionalmente, ao fazê-lo, podemos colaborar para o incentivo à organização social e produtiva, instituindo tributos que sejam “justos”, em outras palavras, que não interfiram significativamente na competitividade e viabilidade econômica de quem os pagam e que não induzam a uma mudança de comportamento dos agentes econômicos no sentido de diminuir-lhes a produtividade e interação econômica por obstáculos financeiros decorrentes da imposição tributária. Por último, o custo de arrecadar em relação ao produto resultante da cobrança, deve ser o mais baixo possível.
Vejamos como a CSS se comporta em relação a estas virtudes. Assumindo a experiência havida com a CPMF da qual a CSS copia e se inspira, sabemos que a arrecadação ocorre. Existe um impacto sobre certos tipos de transações, especialmente às ligadas a processos de intermediação, mas de forma geral, a base tributária não é destruída pela imposição do gravame. Quanto a ser “justo”, a CSS, assim como a CPMF, não se preocupa a mínima. Sabidamente os que mais utilizam bancos pagam substantivamente mais dos que fazem menos uso deste canal para a consecução de seus objetivos. Não existe nenhuma evidência de que, proporcionalmente, ricos utilizem-se mais do que pobres do sistema bancário ou mesmo que as empresas que pagam este imposto não os incorporem aos preços dos seus produtos e, portanto, acabem repassando-o ao onerarem os seus consumidores. Para corrigir esta situação, no caso da CSS, propusemos que quem ganhe menos do que R$ 3 mil seja isento, nobre medida mas de difícil aplicação pois depende em sabermos e comprovarmos quem se enquadra nesta categoria que convenhamos não é uma tarefa trivial. Muito provavelmente, para isentar, adotaremos uma solução simplista e de eficácia duvidosa do tipo reembolso de um dado valor a todos em determinadas circunstâncias.
Por fim temos a tão propalada idéia de que este tipo de imposto tem um baixo custo de arrecadação e ajuda a combater a sonegação de outros impostos. Vejamos; Com uma alíquota de 0,10% a arrecadação esperada seria de R$ 8 bilhões por ano (considerando-se a diminuição com as isenções). Atualmente o sistema bancário registra 5 bilhões de débitos ano o que significa dizer que, em média, cada débito produz R$ 1,60 de arrecadação. Os registros relativos aos tributos precisam ser mantidos por 5 anos, informados com alta freqüência ao fisco e aos contribuintes e repassados em prazos relativamente curtos após a sua incidência. Mesmo com toda a eletrônica disponível, o trabalho e recursos consumidos por todos os envolvidos na arrecadação deste gravame, ainda que na casa dos centavos, significaria um grande percentual do valor arrecadado. Tanto faz se o fisco ou outros assumem custos ao cumprirem com exigências tributárias, ao fim, para arrecadarmos um pouco, gastamos um muito. Quanto ao combate à sonegação, o fim da CPMF provou de vez que, para obtermos informações sobre a movimentação financeira dos contribuintes, é só determinar isto aos bancos, não precisa imposto algum e os custos de fazê-lo são bem mais baixos, pois dispensá-los de informar operações miúdas que somam pouco em termos de dinheiro não compromete a fiscalização mas diminui substantivamente o gasto.
Se tivermos que aumentar impostos, o que não parece o caso, vamos escolher impostos melhores do que estes que sabidamente mais atrapalham do que ajudam.
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quarta-feira, 19 de março de 2008 Por Alfredo Moraes
Por Alfredo N. P. Moraes
Estupefatos. Foi assim que os que lutaram pela migração do mercado de títulos brasileiros do exterior para o Brasil se sentiram diante da medida que resultou na imposição de IOF sobre aplicações de estrangeiros em renda fixa no Brasil. Desde 2005, quando lançou o estudo denominado Dívida Pública - Participação do Investidor Estrangeiro, a Andima vem defendendo a isenção para investidores não-residentes no país do Imposto de Renda incidente sobre aplicação em títulos públicos federais, e que o mesmo tratamento fosse estendido aos títulos corporativos.
Com grande visão e senso de oportunidade, o governo Lula contemplou este pleito em junho de 2006, quando a então Medida Provisória nº 281, editada em fevereiro, foi transformada na Lei nº 11.312. Foi uma decisão extremamente benéfica, pois retirou encargos que puniam o investidor externo sempre que optava por operar em nosso país, permitindo que nós, agentes dos mercados financeiro e de capitais, conseguíssemos, gradativamente, atrair os estrangeiros para se juntar aos brasileiros e negociar em nossos domínios.
Através desse esforço, criamos um mercado com mais liquidez, melhores preços, maior robustez, confiabilidade e, principalmente, gerador de empregos e soberano sobre suas regras e procedimentos. Ponto para todos os envolvidos, que souberam transformar boas iniciativas em ganhos concretos para o país.
De fato, pode-se comprovar que a isenção concedida aos não-residentes colaborou para a melhora do perfil da dívida pública interna. Confrontando-se os dados de janeiro de 2008 com o mesmo período de 2006, observa-se que a parcela dos títulos atrelados à taxa Selic recuou de 49,48% para 34,77%, enquanto a dos prefixados e a dos corrigidos por índices de preços aumentaram de 26,7% para 34,92% e de 19,15% para 27,22%, respectivamente. O prazo médio das emissões em oferta pública de papéis prefixados cresceu de 20,77 para 22,64 meses, e o dos indexados, de 43,96 para 78,56 meses, elevando a duration da dívida no período.
Segundo estimativas do próprio Tesouro Nacional, a participação dos investidores estrangeiros no total da dívida pública, inclusive por meio de fundos de investimento, que em janeiro de 2006 era de apenas 0,74%, atingiu 4,71% em janeiro de 2008, totalizando US$ 20,5 bilhões, eminentemente em títulos prefixados e atrelados a índices de preços. Os investidores estrangeiros também têm concentrado suas aplicações em títulos de longo prazo, acima de cinco anos no caso dos papéis indexados. Em contrapartida, observa-se uma menor colocação de títulos corporativos e soberanos no mercado internacional, o que aponta no sentido do fortalecimento do mercado de títulos doméstico.
Não restam dúvidas de que a demanda pelos investidores estrangeiros para a ponta longa da curva de papéis prefixados e indexados a preços vem auxiliando a Autoridade a reduzir o trade-off entre custo e prazo. É inequívoca, portanto, a contribuição desses agentes para a melhora do perfil do endividamento público e para a formação da estrutura a termo das taxas de juros.
Mas, se o resultado foi o desejado e os números confirmam isto, por que mudar? Para evitar a entrada de recursos estrangeiros e com isto impedir o "derretimento do câmbio"? Confesso que não entendi. Todos sabemos que, antes de termos removido as assimetrias de regras entre operar no Brasil e no exterior, o que se via eram empresas, bancos e o Tesouro Nacional emitindo papéis no exterior, inclusive em reais, e trazendo os recursos para cá - ou seja, a entrada se dava do mesmo jeito, só que por meio do brasileiro, que por sua vez, se endividava lá fora perante o estrangeiro. Diante do arcabouço que ora recriamos, tudo indica que é isto que voltará a ocorrer.
O grande influxo de recursos externos para o Brasil na conta de capital, como já amplamente sabido, é reflexo da excelente relação risco x retorno, que nosso país oferece. Paga
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sexta-feira, 7 de março de 2008 Por Alfredo Moraes
Todo ano nesta época temos o debate sobre o aumento do salário mínimo. A tese dominante é que o salário mínimo é sempre baixo e deve ser continuamente aumentado sob o argumento de que, ao subi-lo estaremos melhorando a distribuição de renda, resgatando a dívida social e outros avanços do gênero.
Façamos uma reflexão. O valor do salário mínimo determina a produtividade mínima que um empregado precisaria ter para conquistar ou manter um emprego. Assim, por falta de capacitação profissional ou empreendedorismo e arrojo do empregador para justificar economicamente uma contratação, um salário mínimo alto simplesmente atua como uma barreira de ingresso ao emprego formal e, portanto, ao avanço econômico e social.
Analisado sob este ângulo, um salário mínimo continuamente ascendente é, antes de mais nada, um desafio posto aos empregados e empregadores para que melhorem seus processos e competências na mesma razão do aumento, de forma a justificarem seus maiores ganhos e gastos sem onerarem os consumidores.
Sabemos que salário mínimo, para quem não esta empregado, não garante renda mínima. Infelizmente na questão emprego nossas estatísticas são desastrosas, mais da metade da população economicamente ativa no Brasil não têm emprego tipo carteira assinada, trabalham mas fora de uma relação de emprego. Deste imenso contingente de autônomos, uns poucos são altamente produtivos e escolhem não serem empregados para diminuir seus impostos, mas a esmagadora maioria gostaria de poder se integrar a alguma empresa o que lhes permitiria um grande ganho de produtividade pela possibilidade de se especializarem, aproveitarem melhor sua jornada de trabalho e terem acesso a ferramentas e equipamentos de maior tecnologia.
Neste sentido, para a grande maioria de autônomos e desempregados, oportunidade de inclusão, ou seja, ter um emprego regular e formal, é muito mais significativo do que um salário mínimo alto mas inacessível.
Além do interesse em aumentar o nível de qualificação mínima dos empregados e empregadores, que nos parece plenamente justificável caso o desafio proposto seja compatível com a capacidade da força de trabalho de superá-lo, quem mais ganharia com um salário mínimo alto? Algumas classes de aposentados com certeza pois seus benefícios não podem ser inferiores a 1 salário. Funcionários públicos estáveis no piso salarial também pois não podem ser demitidos, quem mais?
Respondo; a falta de percepção do desafio a que submetemos o trabalhador quando elevamos os requisitos mínimos para que este possa se juntar a outros em uma empresa, é o terreno fértil onde germina a semente da exclusão e do auto-protecionismo que várias categorias profissionais cultivam como forma de assegurar um mercado de trabalho de alta exigência e, portanto, de baixa mobilidade e privilegiador dos atuais integrantes e do seu entorno.
Trabalhador não organizado e sem especialização não tem voz, bancada ou holofote, cabe ao Estado, na sua missão maior de promover o desenvolvimento com inclusão e oportunidade a todos, enfrentar o “Status Quo” dos que içam a barra numa altura que só os seus conseguem superá-la.
Salário mínimo bom é aquele que se coaduna com a realidade da grande maioria dos desempregados que não encontram sua chance, pouco ou nada tendo a ver com números cabalísticos calculados por pessoas comprometidas com o seu quintal.
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008 Por Alfredo Moraes
Em evento recente da Revista Banco Hoje, o Presidente do Banco Central, Dr. Henrique Meirelles, em sua palestra discorreu sobre a importância do aumento da produtividade para a sustentação do crescimento não inflacionário.
Embora todos concordem com os benefícios do aumento de produtividade aqui entendido como o aumento da produção por unidade de trabalho empregado, não poderia deixar de explorar um outro ângulo desta questão que tem ficado à margem dos nossos debates que é a eficácia da produção.
Os bens e serviços têm seu valor derivado da sua usabilidade, ou seja, produto bom é aquele que atende as necessidades de quem o consome (utiliza) e que seja oferecido a preço compatível com sua percepção de valor de uso.
A economia de mercado se encarrega de adequar a produção às necessidades dos consumidores mas é só isto. Mecanismos de mercado não se preocupam com o desperdício e, em muitos casos, até o estimulam como forma de aumentar seus ganhos individuais. Dentre as várias formas de desperdício talvez a mais perversa seja a obsolescência precoce onde produtos ainda com valor de uso são desativados ou substituídos por outros superiores sem que o “refugo” consiga ser reaproveitado por outros.
Quando esta “sucata” em bom estado são produtos, materiais, equipamentos ou instalações já deveriam despertar preocupações mas quando se referem a pessoas com bagagem, disposição física e aptidão ao trabalho, o descaso e a falta de políticas de re-inserção no mercado de trabalho são totalmente inaceitáveis.
É sabido que a utilização da tecnologia aumenta a produtividade pois usando menos pessoas ou horas de trabalho conseguimos o mesmo nível de produção. Por outro lado, se as pessoas dispensadas neste processo de avanço tecnológico não conseguirem desenvolver outras atividades e, portanto, precisarem ser sustentadas pelas que trabalham, no agregado, podemos não ter ganho algum.
Talvez a falta de luz sobre este problema seja a responsável pela fraquíssima agenda de propostas consistentes de melhor aproveitamento da nossa produção e, em especial, de nossos trabalhadores.
Como melhorar a reciclagem? Faço uma sugestão; Melhorar substantivamente a eficiência do processo de seleção através da institucionalização de empresas avaliadoras e certificadoras de habilidades profissionais. Aprimoramento da legislação sobre contrato temporário de trabalho, especialmente para o primeiro emprego e para os desempregados por um longo período.
O sucesso de uma sociedade se mede pelo índice de satisfação de sua população, satisfação esta resultante da conciliação de expectativas com realidades e desafios com segurança. Vamos mirar o crescimento do produto, fronteira facilmente aferível, sem sacrificar a dignidade dos indivíduos ou a sustentabilidade do ambiente sócio-geográfico.
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008 Por Alfredo Moraes
Assumo que todos sabem que Subprime são aqueles empréstimos imobiliários feitos a indivíduos na categoria “Ninja” (pessoas sem renda comprovada, emprego fixo ou bens no seu nome) que foram o estopim desta grande crise financeira que atualmente nos apavora.
Seriam os protagonistas desta forma de financiamento os responsáveis por este estado de coisas? Se forem devemos mudar as regras impedindo este tipo de crédito para que isto não mais ocorra?
Se constatarmos que os “Ninja” são pessoas e como tal precisam morar, chegaremos à conclusão de que não financia-los diretamente somente abre espaço para que outros intermediários o façam, obviamente com um custo maior do que seria possível se franqueássemos seu acesso ao sistema de crédito formal. Portanto, restringir o crédito aos “Ninja” certamente causa mais mal do que bem tanto pela precarização da qualidade de vida destas pessoas quanto pelo estímulo ao comportamento avestruz, ou seja, empresto para alguém que empresta para quem eu não emprestaria.
Então, nada a fazer? Estamos condenados a, de tempos em tempos, termos crises financeiras detonadas pela incapacidade dos agentes financeiros em dosarem seu apetite a risco fruto do imperativo de retornos de curto prazo parrudos? Este é o cerne do problema.
A competição nos mercados é a mola propulsora do desenvolvimento e da melhoria das condições para os consumidores mas ao mesmo tempo é o caldo de cultura que permite o crescimento de comportamentos inadequados (bolhas) que levam a excessos e crises sistêmicas.
Arrisco uma proposta. Sabemos que bolhas, para causarem danos, precisam expandir-se consideravelmente antes de explodirem, especialmente estas de impacto sistêmico. Não são coisas que passam despercebidas ou envolvem um número limitado de pessoas, muito pelo contrário, são grandes correntes com vários elos que ocupam os noticiários pela sua pujança e grande capacidade de enriquecer os seus participantes. Será que não seria melhor criarmos agências especializadas capazes de avaliar operações com escala para provocarem riscos sistêmicos, emitindo os competentes alertas, ao invés de impormos um sem fim de regras e controles para situações particulares que, por estarem dissociadas do macro contexto, são sempre insuficientes, limitantes e encarecedoras das atividades reguladas?
Temos tecnologia para prever terremotos, furacões e outros potenciais desastres mas, no plano financeiro, somos basicamente reativos e frequentemente nos esquecemos de que o raio raramente cai duas vezes no mesmo lugar, ou seja, erros do passado não tendem a se repetir, não pelas restrições regulatórias, mas pelo simples fato de que são conhecidos e, portanto, antecipáveis e evitáveis pela cadeia dos potenciais afetados.
Vamos parar de nos preocupar tanto com as muitas formigas ou o previsível movimento migratório das aves e passemos a nos concentrar nas movimentações dos poucos elefantes, principalmente os desembestados que vêm em disparada em nossa direção com grande estardalhaço.